terça-feira, 7 de maio de 2013

Luso-exageros

Há uns anos, comecei a ouvir falar do melhor bolo de chocolate do mundo, feito em Lisboa. Devo dizer que, para meu gosto, não chega nada a um que o meu filho faz muito bem, segundo receita obscura cuja origem já esqueci. Mas adiante. Achei graça ao tal epíteto, que tomei como brincadeira e golpe publicitário. Se não fosse, qualquer meu aluno de “racionalidade científica” diria candidamente que tal coisa é impossível porque ninguém consegue comer e avaliar comparativamente todos os bolos de chocolate do mundo.

O mal é que a moda pegou e se tornou irritante e tonta, até porque me parece ser tratada a sério. Em escala geográfica mais reduzida, fazem-se provas para se escolher o melhor pastel de nata de Portugal ou o melhor bolinho de bacalhau. Da riquíssima variedade de cozinha tradicional, extraem-se umas curtíssimas sete maravilhas.

Até coisas mais eruditas, a justificar maior cuidado gastronómico e técnico, são objeto do mesmo mau trato. Já aqui tentei desmontar o caso da cataplana, tida por alguns, incluindo chefes conceituados, como o melhor instrumento de cozinha do mundo. O que dizer dos cestos chineses de cozer a vapor, das “daubières” francesas, do “caquelon” suíço, do “wok”, da "paella", até, em Portugal, a púcara ou o alguidar terceirense? Nenhum é melhor em absoluto, foram apurados foi como o melhor instrumento para um uso específico.

Mais intensa é a campanha que nos martela com “temos o melhor peixe do mundo”. Não faço ideia se sim ou se não. Já comi peixe em muitos lados e sei, por exemplo, que o peixe de Cabo Verde, que comi o ano passado, era em geral muito bom. Mas é melhor ou pior do que o nosso o peixe argentino, chileno, japonês, alasquiano, etc., só para falar de águas frio-temperadas, mais comparáveis com as atlânticas? Não faço ideia, nunca comi. E duvido que nunca o comeu o Dr. Marinho E Pinto e os variados jogadores de futebol e quejandos que juram no jornal que “temos o melhor peixe do mundo”. E que peixe? O que é descarregado nas nossas lotas mas pescado sei lá onde? O peixe apanhado em águas pouco fundas, em pesca artesanal, ou apanhado em mar alto? O do continente ou o dos Açores? O da plataforma continental portuguesa ou da galega ou cantábrica, que afinal se continuam umas às outras?

Outra coisa melhor do mundo que parece indiscutível que temos é o queijo. Ainda há pouco tempo me diziam que a melhor tábua de queijos franceses ou suíços não chegava a um portuguesíssimo queijo bem rústico de ovelha, curado. Nem sequer um Serra ou um Azeitão. Não é de estranhar, quando a nossa cultura gastronómica quanto a queijo é reduzida e até tão frágil que aceita hoje a moda de péssimo gosto do queijo como entrada em vez de sobremesa. E já nem falo da incapacidade geral de distinguir, por exemplo, um Topo de um Rosais ou um 3 meses de cura de um 7 meses. Claro que estou a falar de S. Jorge, o queijo português que, para mim (admito que é questão de gosto), é o que melhor figura faz numa tábua internacional de queijos de qualidade.

E também não é que temos dos melhores vinhos do mundo? Vá lá, o "de" sempre faz diferença. Um dia destes vamos ter a melhor batata do mundo.

Agora, a sério, o que nunca imaginei foi o que me aconteceu há dias e me motivou para escrever esta nota: comprei num hipermercado uma coisa que, vi ao chegar a casa, dizia garrafalmente no embrulho: “o melhor pão de forma do mundo”.

1 comentário:

  1. Belíssimo texto, assertivo e bem a propósito dessa onda parva que por aí campeia.
    Costumo desmontar a parvoíce com uma falácia que, normalmente, nem é percebida: " Em Portugal faz-se o melhor Queijo da Serra do mundo" ou " Os Pastéis de Belém são os melhores Pastéis de Belém do mundo"...

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